terça-feira, 22 de setembro de 2009

COMENTÁRIO do LÍVRO: O PEQUENO PRÍNCIPE.

O Pequeno Príncipe é uma história fabulosa. Assim como a parábola, a fábula é uma narração alegórica, que encerra verdades importantes e tem como objetivo passar ensinamentos morais de uma maneira lúdica. Os planetas encontrados na viagem do pequeno príncipe possuem moradores, ou seja, personagens com costumes e manias que nos fazem refletir sobre os comportamentos humanos. Mesmo que esses personagens nos sejam apresentados como bichos ou plantas, mas nos levam a julgar suas atitudes na historinha. Uns temos como simpáticos, outros patéticos e ainda outros como maldosos e arrogantes.
Quase todos nós quando crianças lemos e entendemos, à nossa maneira infantil, a historinha do Pequeno Príncipe. Hoje, quando voltarmos àquela leitura, encontramos uma outra história, que não havíamos percebido. Agora adultos encontramos verdades filosóficas. A trama narrativa das historinhas, da maneira que nos são apresentadas, propõe significados com tanta “profundidade” como se fosse um tratado de filosofia.
No início do livro o autor, Antore de Saint-Exupery pede desculpas às crianças para oferecer a história, à criança que existia dentro do adulto, seu amigo, Léon Werth. O adulto que não perdeu a capacidade imaginativa consegue “viajar” com o principezinho por planetas fabulosos. Albert Ainsten dizia que o mais importante não é a razão, mas sim a nossa capacidade de fantasiar. O principezinho numa frase singular mostra-nos a vantagem de deixarmos a nossa imaginação “viajar”: “Quando a gente anda para frente, não pode mesmo ir longe (...)” (III).
A personagem que narra a história percebe que sempre temos os nossos gostos e paixões, e que são subjetivos. Por isso quando não consegue desenhar um carneiro que seja do gosto do pequeno príncipe, desenha uma caixa onde supostamente haveria um carneiro. O pequeno príncipe imagina dentro da caixa um carneiro de sua preferência, e se a imaginação é dele, logo o carneiro também é seu. Aqui o autor faz uma analogia com a filosofia de Descartes:“A prova de que o principezinho existia é que ele era encantador, que ria, e queria um carneiro, é porque existe” (IV). Se Descartes pôde afirmar que “se penso existo”, se o principezinho quer um carneiro, ele também existe.
Esta fábula que nos parece tão infantil num primeiro momento. Numa leitura mais elaborada nos leva a reflexões filosóficas acerca da melhor maneira de se viver nesse mundo. Quais são os verdadeiros valores que o ser humano deve preterir e cultuar nele e nas outras pessoas. O principezinho refletindo sobre seu relacionamento com sua flor, afirma: ”Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras (...). (VIII). São nos atos que encontramos a verdadeira essência do outro, não nas suas palavras.
No pórtico do oráculo de Delfos estava escrito: “conheça a ti mesmo” Sócrates fez dessa frase a sua máxima preferida. O pequeno príncipe é nomeado pelo rei a ser seu ministro da justiça, como não havia ninguém para ser julgado, o rei determinou: “Tu julgarás a ti mesmo, respondeu o rei. É o mais difícil. É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues julgar-te bem, eis um verdadeiro sábio. (X). Conhecermos-nos, é fazer julgamentos dos nossos atos, das atitudes que tomamos frente aos problemas que nos são apresentados pela vida. Assim podemos aparar as arestas que por ventura pudermos perceber na nossa personalidade, para que nos tornemos cada vez mais aptos a viver nesse ou em qualquer “planeta”.



O capitalismo também é tratado nas historinhas do acendedor de lampião, que representa o trabalhador alienado e o homem de negócios, que representa o capitalismo insaciável. O capitalista quer sempre mais e pensa em privatizar tudo. Quer comprar todas as estrelas do céu para se tornar cada vez mais rico. Todas as coisas deixam de servir as necessidades naturais dos seres humanos para na mão do capitalista tornar mercadorias que possibilitam cada vez, e cada vez mais lucros. Até o conhecimento é privatizado pelo homem de negócios da historinha: “Quando tens uma ideia primeiro, tu a fazes registrar: ela é tua”. (XIII). (XIV). Acabamos por acostumar com o absurdo que são as regras do capitalismo, e às vezes não percebemos que não há fundamento nenhum em privatizar e fazer do conhecimento uma mercadoria que propicie lucros para os que o detém. A incoerência dos fatos narrados nos minúsculos planetas que o pequeno príncipe encontra em sua viagem, nos possibilita descobrir a vida absurda que vivemos em nosso próprio planeta.
O Pequeno príncipe nos faz refletir sobre o que é viver de verdade. Qual são as coisas mais importantes para se vivenciar no mundo. Porque somos tão pragmáticos, quais são realmente os verdadeiros valores humanos que deveríamos priorizar. Procura mostrar os riscos que corremos pela aventura: “a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar... (XXV).” Quando adultos perdemos o foco do que realmente nos proporciona prazer: “Só as crianças sabem o que procuram, disse o principezinho. Perdem tempo com uma boneca de pano, e a boneca se torna muito importante, e choram quando a gente a toma... Elas são felizes... (XXII).” O poeta Pablo Neruda escreve no seu livro, Confesso que Vivi: “Se os poetas respondessem de verdade às indagações, revelariam o segredo: não há nada tão belo quanto perder tempo”. “__ Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos. (...). Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante. (...) Os homens esquecem essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas (...)”. Nesta última frase tão singela, a raposinha sintetiza todos os valores humanos. O amor resume toda a grandeza humana assim como a fala dele metamorfoseia o humano em desumano.
Para o Principezinho a morte não é motivo para tristeza. Montaigne considerava que estar pensando na morte é estar filosofando. O principezinho prevendo sua morte, diz para seu amigo olhar à noite o céu e contemplar as estrelas: “__ Quando olhardes o céu de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem rir! (XXVI). O que realmente deveríamos valorar nos entes queridos é a lembrança agradável que temos deles não a sua ausência física, que resume em puro egoísmo de nossa parte. Quando choramos pela falta dos que partiram desse mundo, não estamos chorando por eles mais única e exclusivamente por nós mesmos.
Podemos finalizar esse comentário, conclamamos a todos que nos acompanharam até aqui, a fazerem novamente outra leitura do Pequeno Príncipe. Porque a viagem é muito pessoal, e cada um pode sentir novas emoções, e perceber nas aventuras, e nos passeios pelos pequenos planetas, verdades que não conseguimos perceber nessa nossa viagem.

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